Lendas transformam pôr do sol em momento de conexão espiritual na cidade mais indígena do Brasil

  • 08/02/2026
(Foto: Reprodução)
Pôr do sol em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. Lucas Macedo/g1 AM O pôr do sol em São Gabriel da Cachoeira, às margens do Rio Negro, no Amazonas, é mais do que um espetáculo de cores para os povos originários da região. Entre os Tukano e os Baniwa, duas lendas diferentes dão sentido ao momento em que o sol se despede do dia, transformando o fenômeno natural em um ritual sagrado. A ligação entre as visões ancestrais com a cultura do município amazonense se justifica: São Gabriel da Cachoeira é a cidade mais indígena do Brasil, segundo o IBGE, com mais de 90% da população sendo pertencente a uma dentre vinte etnias. Para a maior parte dos habitantes, o pôr do sol segue sendo um dos símbolos mais fortes da união entre mito e realidade. O céu tingido de laranja, vermelho e roxo reflete nas águas escuras do rio e impressiona moradores e turistas. Mas, para os povos indígenas, o espetáculo vai além da estética: é um momento de respeito e silêncio, em que se reafirma a conexão espiritual com os antepassados. 📲 Participe do canal do g1 AM no WhatsApp De acordo com a Secretaria de Cultura do Município, na tradição Tukano, o sol mergulha nas águas do Rio Negro para descansar e renovar suas forças, sendo acompanhado por espíritos que garantem a continuidade da vida. A visão da etnia sobre o fenômeno natural já foi alvo de estudos internacionais. O antropólogo britânico Stephen Hugh-Jones, esteve na Amazônia em 1979, e passou um tempo com o povo Tukano. A experiência resultou na publicação sobre a lenda no estudo 'From the Milk River: Spatial and Temporal Processes in Northwest Amazonia' (Do Milk River: Processos Espaciais e Temporais no Noroeste da Amazônia, em tradução literal). “O sol é visto como um operador do tempo e do espaço, responsável por ordenar o ciclo da vida e garantir o equilíbrio entre o dia e a noite”, diz trecho do estudo. Já para os Baniwa, o pôr do sol simboliza a passagem do tempo e a harmonia entre os mundos, com os ancestrais guiando o astro em sua travessia para assegurar equilíbrio entre natureza e humanidade. “O pôr do sol entre os Baniwa é também um marcador de tempo, que orienta práticas sociais e agrícolas, funcionando como um mapa cosmológico”, explica a pesquisadora da Universidade Federal do Amazonas, Silvana Rossélia dos Santos. O pesquisador americano Robin Wright, especialista na cosmologia Baniwa, destacou no estudo "História Indígena e do indigenismo no Alto Rio Negro”, a crença indígena sobre o fenômeno. “Cada pôr do sol é entendido como um ritual de passagem, em que os ancestrais conduzem o sol para o mundo espiritual, reafirmando a ligação entre presente e passado”. A comunicadora Yngrid Duarte, que veio de Brasília para acompanhar uma comitiva que trouxe donativos para comunidades indígenas na cidade, ressaltou a experiência vendo o pôr do sol. “O pôr do sol foi muito bonito, parecia que estava saindo faísca do céu, teve várias rajadas, foi mágico, encantado. Acho que isso explica muito sobre a cidade”. Guias locais costumam compartilhar essas histórias durante passeios de barco, destacando a importância da preservação cultural e ambiental. Ambas as tradições reforçam que o pôr do sol é mais do que um fenômeno natural — é um momento sagrado de conexão entre mundos. LEIA TAMBÉM: Crianças indígenas da etnia Duraca recebem livros com histórias e saberes da própria cultura no Amazonas Unidades de conservação e terras indígenas do AM estão entre as mais ameaçadas na Amazônia, diz estudo Aniversário de São Gabriel da Cachoeira tem apresentações de associações culturais

FONTE: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2026/02/08/lendas-transformam-por-do-sol-em-momento-de-conexao-espiritual-na-cidade-mais-indigena-do-brasil.ghtml


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